História de uma retirada

Marcações pré-cirurgia. [Foto: acervo pessoal]
Oito anos e três cirurgias depois, a artista curitibana Karla Keiko conta sua experiência com próteses de silicone
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É irônico quando Karla Keiko conta que frequentou uma praia naturista na infância e na adolescência. A artista visual paranaense, que estará na próxima Bienal de Curitiba, foi muitas vezes, a convite de uma tia, a um trecho de litoral onde os banhistas passeiam sem maiô ou sunga e todo mundo parece à vontade. Lá, ela também se despia sem pudor. “Sempre me dei bem com o meu corpo”, diz. A ironia é que, aos 20 anos, a vida de Karla mudou por um biquíni.

Ela desembarcou no Brasil depois de uma temporada de estudos em Londres e quis ir à praia. O destino escolhido exigia trajes e, por isso, Karla foi às compras. Procurou um biquíni, mas não gostou de nenhum. A irmã, que a acompanhava, via o vai-e-vem do provador. De repente, anunciou: “Tenho uma surpresa”. E conduziu Karla até o carro. “Ela me levou direto a um cirurgião plástico. E eu nunca tinha pensado em colocar silicone.”

“Os cirurgiões são ótimos vendedores. Charmosos, convincentes. Te olham, te medem e falam: vai ficar lindo” — Karla Keiko

Dentro do consultório, a ideia da cirurgia plástica se materializou em minutos: próteses mamárias fariam qualquer roupa cair bem. “Eles são ótimos vendedores. Charmosos, convincentes. Te olham, te medem e falam: vai ficar lindo”, lembra. Seguiram-se exames apressados e um horário de encaixe no centro cirúrgico, do qual Karla acordou com 300 mililitros de silicone sob cada mama. Ainda não havia completado uma semana de volta ao Brasil.

Karla antes da cirurgia. [Foto: acervo pessoal]

Logo após a cirurgia, veio o baque. “Sentei na cama e pensei: fiz besteira”, lembra. Ela escondeu as crises de choro da família, mas a coisa piorou quando as próteses sofreram contratura capsular 1e deformaram os seios. “Quando eu deitava de barriga para cima, caía um para cada lado. De lado, via aquelas duas bolas e uma pele esticada, fina. Meus peitos chegavam quase no meu umbigo, cada mamilo apontava para um lado e eu não sentia nada neles”, diz.

No meio da operação de Karla, o cirurgião ignorou o combinado com a paciente e escolheu uma prótese de 300 mililitros. Julgou mais bonito.

Ela mostrou o problema ao cirurgião, mas acabou levando a culpa. “Ele disse que eu tinha feito alguma besteira. Saí de lá transtornada”, conta. Mais tarde, quando a tia perguntou por que não ia mais à praia naturista, Karla desabafou. “Comecei a chorar. Minha prima viu, minha mãe viu.” Foi a primeira vez que ela dividiu a desilusão com a família, quase um ano após a cirurgia. Para ajudá-la, a prima ofereceu uma nova plástica como presente, desta vez com um profissional de São Paulo, “um artista”.

Na primeira consulta, Karla e o médico discordaram sobre o tamanho das próteses. “Eu queria a menor e pedi 100 mililitros, mas ele disse que a de 200 era melhor. Eu disse que não queria, ele insistiu e eu cedi”, resume. Operada pela segunda vez, a artista acordou em São Paulo e teve um déjà vu. “A mesma cama, o mesmo sangue, o mesmo peso”. Com um detalhe inédito. No meio da operação, o médico ignorou o combinado e escolheu uma prótese de 300 mililitros. Julgou mais bonito.

“Ter virado uma mulher-objeto foi o que mais me machucou. Os caras falavam com os meus peitos.” — Karla Keiko

“Fiquei quieta. Minha prima havia pago pela cirurgia, eu estava já cortada, com aquilo lá dentro”, afirma. “E fiquei nessa de não falar nada para ninguém pelos sete anos seguintes. Se tentava, ouvia: ‘cala a boca, você está linda’. Esteticamente, de fato, me sentia resolvida, principalmente de pé. Mas, se fosse correr, tinha aquele peso. Quando ia transar com alguém, dizia: ‘desculpa, tenho que te contar uma coisa’. Me sentia distante ao abraçar as pessoas e dormir de bruços era como dormir sobre uma bola de pilates.” 2

A reação dos homens também a feriu. “Ter virado uma mulher-objeto foi o que mais me machucou. Poderia ter me sentido assim sem o silicone, mas foi ele que me abriu para isso. Os caras falavam com os meus peitos3.” Apesar das observações, o silêncio continuava. “Você não vai abrir a boca e falar. A sensação que dá é que você é louca. Fui lá e agora estou insatisfeita? Não era isso que queria? Nessa hora, tudo se confunde”, diz.

Fotografada logo após a cirurgia pela mãe. [Foto: acervo pessoal]

Até que, em 2016, durante uma residência artística, Karla se viu desabafando novamente. Depois de chorar, acatou a sugestão do grupo de colegas e migrou o foco para o próprio corpo 4. Investigou a relação de mulheres com o implante e ouviu dezenas que se sentiam igual, arrependidas desde o primeiro dia. O processo resultou no curta-metragem Pendências.

Pendências – por Karla Keiko from Valentinna Filmes on Vimeo.

Internamente, a inadequação aumentava. “Passei a perceber dores que evitava sentir. Veio a urgência da retirada.” Este ano, ela voltou ao mesmo médico decidida a viver sem o implante. E, com a autorização dele, registrou sua última operação, a de remoção. O procedimento, realizado em maio, envolveu nove pessoas e durou cerca de uma hora e meia. “Quando sentei na cama após a cirurgia, dei uma gargalhada. Não tinha aquele peso!” Em casa, Karla viu a filmagem5. “Se tivesse visto antes, não teria topado. A gente quer fingir que não tem essa parte. Quer acreditar que é: entro, durmo e acordo do jeito que quero. Mas não é”, afirma.

“Qual a nossa disponibilidade de pagar para sermos mutiladas?” — Karla Keiko

“A cirurgia é considerada reversível mas, quando paro para pensar, vejo que não é. Não tenho o meu seio de antes. Tenho o de agora, com as cicatrizes.” O que a leva a outro questionamento: “Qual a nossa disponibilidade de pagar para sermos mutiladas?”

Os médicos consultados por Karla não mencionaram a possibilidade da remoção. E essa é uma constante nos relatos que ela que recolhe, e já passam de 50. “Quando as mulheres pedem para tirar, ouvem dos médicos que não é possível, que não garantem a beleza do resultado”.

Cena da cirurgia de retirada da prótese. [Imagem: Laura Formighieri]

O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Luciano Chaves, diz que, de fato, o resultado é “uma incógnita”. Ele lista como orientações prévias o prazo de validade e risco de encapsulamento, apenas. “Não existe esse debate de retirar, muito pelo contrário. O que existe hoje é um movimento gigantesco de inclusão de próteses, que hoje são muito melhores e mais modernas6.” Para casos problemáticos, defende Chaves, a opção é um novo implante.

“O resultado da retirada é uma incógnita” — Luciano Chaves, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica

Na Bienal de Curitiba, que começa dia 30 de setembro7, Karla vai expor seu curta e abrir espaço para mais depoimentos. Ela também faz registros do pós-operatório e compartilha as imagens em suas redes sociais8. Sem os 600 ml, se diz finalmente contente com o corpo. “Estou muito feliz. Quando dizem: não se preocupe, a cicatriz vai sumir, eu, honestamente, estou pouco me fudendo. Só sei que não tem mais nada dentro de mim.”

Antes da retirada [Foto: Matheus Coimbra]
Começando a explorar o corpo artisticamente [Foto: Bruno Santos]
Registro de um momento de agonia no início da pesquisa [Foto: acervo pessoal]

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