Flower power na veia: Roseli Siqueira

Em São Paulo, a esteticista Roseli Siqueira conquistou uma clientela de elite defendendo o oposto da indústria — mais nutrição, menos correção

Fora laser, fora peeling, fora protetor solar. Fosse o mercado da beleza um ato político, a bandeira de Roseli Siqueira traria, muito provavelmente, essas frases. A esteticista paulistana de 60 anos confia, há 20, nos vegetais como maior princípio ativo. Legumes e flores estão nos cremes que ela produz (alguns custam mais de R$ 600) e nas máscaras que aplica em São Paulo, no seu centro de tratamento. Ali, também faz massagem e realinhamento de chacras para acalmar peles aflitas. “Acredito em nutrir as células. Sem essa de pele oleosa, seca ou mista. O que existe é pele fraca, necessitada de força para reagir ao tempo e ao meio ambiente”, afirma.

A ideia que sustenta clínica, local de devoção para famosas como as modelos Izabel Goulart e Raica Oliveira, as atrizes Mariana Ximenes e Guilhermina Guinle, a cantora Fafá de Belém e a blogueira Lalá Rudge, 1, é simples e generalista. Destoa da grande oferta de produtos encontrados em farmácias — que tratam ou rugas, ou espinhas, ou manchas. Destoa também da aposta de dermatologistas na agressão controlada que rejuvenesce a pele. O “destruir para renovar” provocado por ácidos é uma ideia hoje bastante popular e aceita com tranquilidade entre médicos e pacientes. Talvez por encontrar o mito da Fênix no nosso imaginário e a promessa de um novo começo, ou pela segurança do saber médico, ela faz sentido. Mas está errada, garante Roseli. A nova camada pode até ser mais lisa, mas é também mais fraca. “As células que acabaram de nascer não estão prontas para o sol nem para enfrentar a poluição”, explica.

‘AS MULTINACIONAIS ADORAM’

Vinte anos atrás, quando partiu rumo aos Estados Unidos para uma temporada de estudos, Roseli conseguiu uma vaga no concorrido curso de Arnold Klein, o dermatologista do astro pop Michael Jackson (morto em 2009) 2. Ali, conheceu os efeitos imediatos de ácidos glicólicos, retinóicos, despigmentantes e outras substâncias usadas para provocar o peeling (do inglês peel, descascar). Quase enveredou pelo caminho que hoje condena. “A regra era acabar com a melanina usando inibidores. Voltei deslumbrada”, lembra. Mas, ao dividir a novidade com o professor argentino Dr. Jaime Rubin, autor de “bíblias” sobre a cosmiatria tradicional, levou uma sermão. “‘Sente aqui que você não está entendendo nada’, ele me disse. E explicou a importância de respeitar a célula viva e resgatar elétrons. Usando ácidos e peelings, você melhora a superfície da pele mas, a nível celular, ela fica sem defesas. E aí só vai piorando. Isso, as multinacionais adoram.”

A aversão pelo grande mercado começou quando uma empresa de porte global que, atraída pelas credenciais de Roseli, a contratou para lançar aqui uma linha de cremes faciais. Ela fez as primeiras reuniões e negou o convite, desestimulada pela fórmula com derivados de petróleo. “Era o oposto do que defendo, tudo sintético.” Conta que tentou argumentar sobre o poder nocivo dos componentes, já em ampla comercialização nos Estados Unidos, e ouviu da chefia: “‘E daí?. A cada pele estragada hoje, vendemos cinco cremes amanhã’, foi o que diretor me disse. Pulei fora.”

NOVA BUSCA

No lugar, investiu em aparelhos italianos usados também em fisioterapia, que dão tônus muscular ao estimular trocas eletromagnéticas. “Desde então, só trabalho com bioenergética. Os aparelhos fazem um realinhamento harmônico e isso entra na memória celular.” É difícil para as recém chegadas imaginar uma vida sem, por exemplo, protetor solar. A confiança de Roseli em seu método, que começa por expurgar qualquer fórmula de FPS, pregar menos uso de maquiagem e uma rotina básica de limpeza e hidratação com fórmulas vegetais e, às vezes, caseiras, pode chocar. “Aqui, preparo peles que possam aguentar Sol e frio.”

No endereço no bairro de Pinheiros, na capital paulista, as paredes estão decoradas com quadros da artista plástica Isabele Tuchband e há retratos de Roseli divertindo-se para a câmera — na verdade, são poses de ginástica facial3. Sua sala fica de porta aberta em frente à recepção e dali ela sai para falar com as clientes que chegam. Sorrisos e elogios são a regra. Na sala de tratamento, massagens de pé antecedem máscaras de rosto. “Não pode pensar que o corpo tem uma cabeça separada. Tem que unir tudo e cuidar”, diz. Formada em educação artística, chegou a propor aulas de história da arte e filosofia no curso de cosmetologia que ajudou a desenhar para o Senac. As novas contratadas vindas da instituição, no entanto, relatam um currículo sem nenhum desses temas.

Essas coisas fazem Roseli se sentir na contracorrente. Mas, é inegável e ela sabe, sua visão holística está ganhando momentum.

“Na última feira Cosmoprof 4 na Itália, os estandes das multinacionais estavam vazios e os dos cosméticos naturais, bombando. De forma geral, vejo as pessoas muito insatisfeitas. Recebo clientes traumatizadas com peelings, alérgicas e com problema nos olhos por injetar produtos para olheiras.” A elas, sugere uma água aromatizada para começar e palavras de coragem. 

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